domingo, 8 de julho de 2012

EUA - Costa Oeste - SEATTLE



Fronteira Canadá - EUA
Depois de alguns momentos de tensão em Vancouver, quando tive que falar com oficiais de imigração americanos cujo olhar já te faz se sentir culpado pelos maiores crimes, cujas perguntas  dão a impressão de que eles sabem os seus mais obscuros segredos, me deram um visto de seis meses.  Estava preocupado pois um colega de trabalho, canadense, me disse que havia sido barrado nas últimas duas vezes em que tentou entrar no vizinho do sul. Dentro do trem, logo antes de cruzar a fronteira, novos policiais entram e te enchem de perguntas.  Eu, que sou ansioso a ponto de  suar frio na hora de preencher qualquer formulário de banco, que sempre acho que o alarme de uma loja vai tocar quando eu passar pelo sensor (mesmo nas vezes em que não furto nada), não resistiria a um inclemente interrogatório do tipo “O que vai fazer nos EUA? Quanto tempo vai ficar? Hmm?” sem gaguejar e entregar a culpa no meu olhar, pronto a confessar aos prantos, sem precisar de tortura, meu envolvimento no onze de setembro, já encomendando minha passagem para Guantánamo. Por sorte, “meu” policial apenas disse "Passaporte", me olhou, e partiu para o próximo sem mais. Passado o tormento da fronteira, a viagem  americana começa. Primeira parada: Seattle.

Seattle


Não sabia muito sobre Seattle. Sabia que os brasileiros em Vancouver cruzam a fronteira apenas para fazer compras de eletrônicos e roupas de marca nos outlets nos arredores da cidade. Sabia que o time de futebol deles, o Seattle Sounders, é melhor que o time de Vancouver, o Whitecaps (pelo menos foi o que deduzi depois do empate entre eles numa partida que assisti em Vancouver). Achava  que era a capital do estado de Washington (que na verdade é Olympia). Sabia que chovia quase tanto como em Vancouver (afinal não estão tão longes assim, cerca de 200km de distância).

Vista da janela do quarto no albergue
A minha primeira surpresa foi a quantidade de mendigos. Pelo menos umas 100 vezes mais que em Vancouver. Mas acho que estava muito mal-acostumado mesmo, afinal Vancouver foi eleita por anos seguidos como a melhor cidade do mundo pra se viver. O segundo choque é a pouca quantidade de asiáticos nas ruas. Sim, há os turistas e há Chinatown, mas não se compara com Vancouver, cuja população de asiáticos fica em torno de 40%. A população de negros, em compensação, é bem maior. Uns 20% (pelo menos no centro), enquanto a da cidade canadense não deve passar de 2%. Mas talvez essa comparação seja fora de propósito. Por que não comparo Seattle com outras cidades que conheço, como Porto Alegre, Curitiba, Montevidéu, Salvador, Alvorada, Tijuana, Capão da Canoa? A cidade deve ser vista pelo que ela é, mas claro que as experiências anteriores vão pesar no seu julgamento.

Chego em Seattle à noite. Há ainda bastante movimento perto da estação de trem, pois houve um jogo de baseball contra o time de Boston. Não sei quem ganhou. Caminhando um pouco mais, logo encontro ruas vazias. Peço informação. Não sou daqui, diz um. Também não sou daqui, diz outro. Nesse meio tempo, alguém me pede informação, “Onde fica a estação de trem?”. Para sorte dele, é a única coisa que sei informar. Acho duas moças e já pergunto: Vocês são daqui? Não, dizem.Têm sotaque britânico, mas sabem me informar onde fica meu albergue e como chegar lá. Só é uma área meio perigosa, diz uma delas. Que bosta, eu penso. Mas digo: “Então acho que vou gostar.” No fim elas estavam erradas, e a localização é ótima, talvez o número de mendigos é que as tenha assustado.

O pub
Estou num quarto com dois casais. Um australiano e outro meio australiano e meio italiano (mais tarde descubro que também havia um coreano, que estava dormindo). Roberto, o italiano, diz que estão indo num pub e me convida. Uma alemã nos acompanha. No pub, com música irlandesa ao vivo, as conversas são gritadas, então fico conversando com que está ao meu lado,  Henrietta, a alemã. Ela cheira meu copo de cerveja, uma IPA, e pede uma igual. Comento que é uma pena que não tenham nos dado porta copos para as bebidas, pois os coleciono, tendo algumas dezenas. Cada um é uma memória, um aniversário, uma despedida, um símbolo de um momento. Ela chama a garçonete e pede porta copos. Pede para que todos da mesa assinem e coloca a data e local e me dá.  Os casais dançam. Sinto que ela está com vontade de dançar e digo que fique à vontade, mas que eu não sei dançar. Ela diz que também não, mas que é alemã, já eu não tenho desculpa, por ser brasileiro. Digo que nasci sem o gene da dança, que sou um poste, talvez seja herança do meu tetravô alemão. Realmente ela não sabe dançar. Quando volta, digo que foi muito bem. Para uma alemã. Henrietta pega os meus óculos de lentes amarelas e os coloca, estranhando que não têm grau. Admito que são falsos, que só uso pra parecer mais inteligente, que de óculos meu QI aumenta 20 pontos, subindo pra 90. Ela pergunta quantas vezes eu já fiz essa piada. Fico sem jeito. Ela pergunta minha idade. Digo que sou velho o bastante, provavelmente dez anos mais velho que ela, que deve ter uns 25. Ela estende a mão e diz: “Vamos apostar então.” Eu digo, Ok, mas deixa eu reconsiderar a diferença. Oito anos. Apostamos uma cerveja. Eu falo que não perco uma aposta faz 5 anos. E é verdade, na semana anterior tive a minha conta paga por conta de uma aposta feita na mesa do bar. No fim, ela diz ter 28, . Sugiro irmos pra outro bar, onde pago a aposta. 

Estátua do fundador da cidade

quinta-feira, 5 de julho de 2012

No Canadá foi assim...



"Now take the traveler and the tourist
The essential difference is
The traveler don't know where he's goin'

And the tourist don't know where he is"
David Lee Roth



Hoje o blog muda de nome. Passa de No Canadá é Assim para No Canadá foi assim. Uma pequena mudança no tempo do verbo.

Pois é, sei que parei de postar aqui faz tempo, embora tivesse assunto para vários outros posts: a chuva, o inverno, os mendigos, as bicicletas, os pubs, as praias, o trabalho no Canadá, as montanhas, os shortinhos e minissaias, comida vegetariana, os museus, os parques, os animais, o clima, a viagem para Victoria, a tolerância com a presença de cães em estabelecimentos comerciais, as asiáticas, o que se pode aproveitar do lixo dos outros, as cervejas e muito mais. Talvez ainda poste essas coisas mais pra frente. Não agora.

Também não quis postar nos últimos meses pois foi quando vi que ia ser complicado continuar aqui, isto é, não seria tão fácil estender meu visto de trabalho. Desde então, falar sobre o Canadá perdeu a graça pra mim. Deixei muita coisa em Vancouver: tudo o que tinha em casa, tv, som, dvd, mesas, cadeiras, sofá, cama, livros (os quais prometi a mim mesmo não acumular, mas no fim já tinha uns 50), e toda a cozinha. Também roupas de todos os tipos. Quando fiz minha mala devo ter deixado 90% das minhas roupas de fora. Enfim, essas coisas não importam tanto no final. Quando a gente precisa se livrar de algo, fazer escolhas, a gente sabe mais claramente aquilo que tem valor e o que não, o que pode ser substituído e o que não pode. E tudo o que eu tinha de material, apesar de trazer algum conforto, não se compara aos bens mais valiosos que deixei: os amigos.

Talvez por se saber que as pessoas estão de passagem, as relações adquirem certa urgência,  e se tornam mais intensas. Se é mais direto, se perde menos tempo, pois nunca se sabe o que vai aacontecer ali na esquina (não consegui me despedir de alguns amigos pois surgiram imprevistos e não conseguimos nos encontrar por questão de horas).

Enfim, é isso. Tinha amigos, uma casa, um trabalho bom e que pagava as minhas contas na cidade mais cara da América do Norte. Poderia tentar ficar como turista, mas não haveria sentido ficar parado num lugar onde não estaria estudando e não poderia trabalhar. Então decidi ir para os Estados Unidos, onde já morei por 3 meses há 13 anos e pra onde sempre quis voltar. A ideia inicial é descer a Costa Oeste dos EUA, começando no Norte, em Seattle (Washington), passando por Portland (Oregon), San Francisco, Los Angeles até chegar em San Diego (Califórnia).  Como disse, a ideia é essa, mas tudo pode mudar.

Deixei literalmente tudo o que tinha para trás. Mas é diferente do que fiz em Poa, onde deixei tudo também, mas tudo guardado, suspenso no tempo, minha casa um museu de mim (poderia cobrar entrada).


Enchi esse texto de clichês e lugares comuns, mas em certas horas eles caem como uma luva.



sábado, 14 de janeiro de 2012

Polar Bear Swim 2012

Banho Pelado no Guaíba foi um evento fake criado no Facebook durante o inverno portoalegrense com o único propósito de fazer graça, pois a última coisa em que o povo iria pensar no inverno era se atirar nas frias (e poluídas) águas do Rio Guaíba.

Mas eis que aqui em Vancouver o pessoal leva isso a sério.  O Polar Bear Swim é evento  que ocorre no primeiro dia do ano (inverno aqui) em que as pessoas dão um mergulho no mar, com temperatura próxima de zero grau. Disse que levam a sério, mas no fim tudo vira brincadeira, pois o povo cura a ressaca do reveillon fantasiado de tudo o que é coisa.

Cheguei a molhar os meus sapatos, mas não, não entrei na água...
Abaixo coloco alguns vídeos e fotos que fiz na ocasião.






















quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Victoria, BC

Apesar de Vancouver ser a maior, mais rica e mais importante cidade da Colúmbia Britânica, a capital é Victoria, que tem uma população que não passa de 80 mil habitantes. Victoria é, também, uma das cidades mais antigas do Canadá e ainda preserva, na sua arquitetura, o legado dos colonizadores ingleses. É conhecida também como Cidade dos Jardins, que são vistos não apenas nos prédios do governo e hotéis, mas nos pátios de grande parte das casas.
Victoria está localizada na imensa Ilha de Vancouver (não confundir com a  cidade de Vancouver), na ponta sul. Fica a apenas 100km de Vancouver, mas quando fui estava morando em North Vancouver demorei exatamente 6 horas para desembarcar na capital de BC. Foi preciso pegar um ônibis até a estação do Seabus, depois o Seabus até Vancouver, mais um trem até o terminal de ônibus, mais um ônibus até o terminal do ferry, depois o ferry até a Ilha, e finalmente um ônibus até Victoria.

Me hospedei em um hostel bem fuleiro e fiquei um fim de semana, tempo mais do que suficiente para conhecer a cidade a pé. A vida lá parece acontecer apenas na sua área central, onde, no verão, é tomada por turistas, boa parte americanos, já que fica bem pertinho dos EUA.


Enfim, como me disse um canadense, a pacata Victoria só é boa para aposentados.


Pizza vegana que comi no The Joint


A viagem de ferry é ótima

E eu achando que a cidade das carroças fosse Porto Alegre

Prédio do Parlamento





Hotel The Empress

O hostel onde me hospedei

Quarto do hostel, que dividi com mais 5 pessoas

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Vancouver Public Library III

Depois de 9 meses aqui em Vancouver, ainda não me cansei de visitar a VPL, a Biblioteca Pública de Vancouver. Na verdade há várias bibliotecas públicas, todas interligadas (posso devolver os livros em qualquer unidade). Não apenas o acervo é espetacular, com livros, DVDs, CDs e mais, mas, digamos que a fauna também é variada, com gentes de tudo o que é tipo. Então às vezes deixo os livros de lado e me concentro nas pessoas. Outro dia estava no computador e escutei o seguinte diálogo, que fui anotando na hora, pra não perder nenhum detalhe. havia dois caras sentados na mesa ao meu lado, e um deles, do nada, perguntou para o outro:

- Se você fosse gay - e essa é uma pergunta hipotética - se você fosse gay, iria preferir sair com brancos ou com negros?
- Cara, eu não sou gay, então não posso responder.
- Tá, mas se você fosse gay.
- Que pergunta idiota!
- Nenhuma pergunta é idiota.
(silêncio)
- E quanto a você. O que você preferiria se fosse gay?
- ...Eu não sei...



- If you were gay - and that is a hypothetical question - If you were gay, would you prefer to go out with white or black men?
- Man, I'm not gay, so I can't answer.
- Yeah, but if you were gay...
- That's a stupid question!
- No question is stupid.
(silence)
- So, what about you? What would you prefer if you were gay?
- ... I don't know...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Vancouver Riot 2011- vídeos

Aqui vão alguns dos vídeos que fiz durante a Vancouver Riot. Para quem não sabe o que foi, uma explicação rápida: depois de o time de Vancouver perder a final do campeonato de hóquei, em junho de 2011, os torcedores promoveram a destruição da cidade, queimando carros e saqueando lojas.

Esse dia entrou para a história da cidade.




terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vancouver Public Library - II

VPL é palco de festas de casamento em finais de semana
Logo que cheguei em Vancouver passei a frequentar assiduamente a Biblioteca Pública. Como não tinha computador, usava os da VPL para acessar a internet. Passando horas por semana no local, comecei a observar as gentes. Muitos ali, como eu, também faziam do lugar um refúgio, e logo percebi que alguns rostos se repetiam.

Como o mendigo extremamente fedorento que sentava imóvel em uma das poltronas do segundo andar por horas, só pra escapar do frio e da chuva lá de fora. Ou o negro grande e barbudo e sorridente, que, levando as mãos acima da cabeça, batia palmas silenciosas ritmadas assistindo a vídeos musicais. As chinesas estudando inglês desesperadamente. Tem um outro cara, meio mendigo também, que coloca a mochila e o casaco na mesa do computador e sai pra telefonar. E fica sempre gritando no telefone, como se estivesse tratando de um assunto da maior urgência. Tenho minhas dúvidas se tem alguém do outro lado da linha.

Outro dia, esse cara, de uns desgastados quarenta e poucos anos, estava lá no seu telefonema quando um rapaz, do tipo faço academia e tenho orgulho do meu corpo tanto que uso uma camiseta que mostra o resultado da minha dedicação, viu que o único assento vago era o tal em que o outro deixava sua mochila e jaqueta. Ele lentamente começou a remover os objetos. Pra que? O tio do telefone veio correndo (a situação agora era mais urgente que a ligação) gritando.
- Não toca nas minhas coisas! O que tu está fazendo?!
- Não, é que....
- Está roubando a minha mochila?! Hey, ele está roubando a minha mochila!
Foi aí que o fortão, até então aparentemente tranquilo, resolveu reagir, afinal de contas de que adianta gastar tantas horas na musculação se não for pra tirar vantagem disso um dia?
Bem mais alto e jovem que o telefonador, o rapaz foi pra cima do outro, e quase encostando peitos e narizes, trocaram algumas frases amáveis, como: I'm gonna rip your fucking head off, mutherfucker!
(Vou arrancar tua cabeça fora, filho da puta!). Como se isso não fosse ameaça suficiente, também resolveu revelar informações sobre seus antecedentes criminais, dando o nome da penitenciária em que cumprira pena recentemente, ao que o outro respondeu que conhecia.
Nisso, apareceu um segurança da Biblioteca, ainda menor que os outros dois, tentando acalmar os ânimos da rapaziada. Como duas crianças, os dois beligerantes passaram a trocar acusações se dirigindo ao segurança, que, posso jurar, estava se controlando para não rir. Do mais forte, surgiu então a proposta de continuar a discussão fora do recinto:
- Let's go outside!
O outro:
- Ok, vamos. Só deixa eu terminar minha chamada.
E o segurança, pro jovem: 
- Acha mesmo que vale a pena? Seriously?
E pediu para o mais velho se retirar, o que fez prontamente, mas sem parar de resmungar. Vagou então uma cadeira do meu lado, em que o forte sentou, bufando. A biblioteca nunca ficou tão silenciosa.
Depois de uns dois ou três minutos (em que as estudantes chinesas aproveitaram para juntar suas coisas e fugir), ele deu um soco na mesa, se levantou e saiu correndo para fora da Vancouver Public Library. 
Nunca soube o que aconteceu lá fora...
Na escadaria da VPL, campanha sobre a violência de gangues

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Vancouver Public Library

Eu sou suspeito pra falar da Biblioteca Pública de Vancouver. Como bom tímido, me criei  em bibliotecas de colégio. Eram o único lugar em que eu conseguia me resguardar, mesmo que momentaneamente, da mediocridade absoluta que é o ensino no Brasil. Eu costumava pensar que se o mundo entrasse em guerra, eu poderia me refugiar numa biblioteca e seria feliz para sempre, guardião de todo o conhecimento do mundo. Acho até que desejava que essa guerra viesse logo. Enfim , cresci e abandonei (?) de vez esses delírios, mas continuou a busca por bibliotecas, sebos, livrarias, feiras do livro.

Daí que, chegando em Vancouver, a primeira coisa que fiz foi desfazer as mals, a segunda foi visitar a biblioteca pública. E que biblioteca, seis andares com tudo oque você imaginar, num prédio que imita o Coliseu. Lá qualquer pobre, como eu, pode fazer seu cartão da biblioteca de graça (desde que comprove residência e, no caso de estrangeiros, permanência mínimo de seis meses no país). E foi o que fiz na minha primeira semana. Desde então já perdi a conta de quantos livros de ficção, de ensino de língua, DVDs, audiobooks e outros itens já retirei.
E ainda se tem a comodidade de fazer reservas no conforto do seu lar. Os livros e filmes mais concorridos nem chegam a ir para as prateleiras, então tem que entrar na fila. Quando o item estiver disponível, mandam um email avisando que está lá e que você tem 5 dias pra buscar.

E outra coisa, todas as bibliotecas públicas da cidade (cerca de uma dúzia) são interligadas, então posso escolher onde pegar os itens reservados e posso entregá-los onde eu bem quiser.

Num próximo post falarei dos frequentadores da Vancouver Public Library.
Ah, fiz este vídeo na calçada em frente.



http://www.youtube.com/watch?v=D_p2Cm98T2I

Occupy Vancouver 2011

Sim, Occupy Wall Street, o controverso movimento que começou em Nova York e se espalhou por várias cidades americanas atravessou a fronteira e chegou no maior país das Américas. Depois de uma marcha que reuniu milhares de manifestantes há algumas semanas, o povo armou as barracas e ocupou o terreno em frente à Vancouver Art Gallery. E ninguém sabe quando pretendem sair (se é que pretendem). A polêmica já começou, pois, embora a prefeitura já tenha enchido o saco da situação, aqui a polícia não tem fama de violenta, vide a Vancouver Riot 2011.
Algumas fotos que fiz do evento.









terça-feira, 18 de outubro de 2011

Raça Humana

Existe um tipo de sociólogo que há alguns anos adotou o discurso de que não existem raças. Eles não perdem uma única oportunidade de soltar sua pérola: "Já foi cientificamente comprovado que não existem raças!" Sempre assim, com ponto de exclamação. Basta alguém comentar sobre a cor do cabelo ou dos olhos de alguém e eles se atiram sobre a mesa do bar (seu habitat): "Já foi cientificamente comprovado que blablabla..."

Mas o que eu ia dizer é que não consigo deixar de pensar nesses fabulosos cientistas sociais toda vez que caminho pelas ruas de Vancouver. Chineses, sauditas, coreanos, indianos, mexicanos, japoneses, brasileiros, vietnamitas, iranianos, líbios, alemães, russos, gregos e pessoas de muitos outros países. Não posso esquecer dos canadenses, claro. Dizer que são todos da mesma raça é como colocar um São Bernardo e um Chiuaua lado a lado e jurar que não consegue diferenciar um do outro. E, ao contrário do que esse pessoal pensa, não há nada errado em admitir essas diferenças. Agora, estabelecer qualquer parâmetro de valor ou hierarquia segundo o critério racial é um absurdo gigantescamente ridículo que deve ficar enterrado lá no longínquo século 20.


Sério, caminhar por Downtown Vancouver é a maneira mais rápida de dar a volta ao mundo. Não apenas pelas pessoas que você vai ver, mas também pelos restaurantes. Numa praça de alimentação de shopping center é possível encontrar comida chinesa, árabe, mexicana, vietnamita e indiana.

Alguns desses povos andam mais segregados, como os chineses. Engraçado que estão dominando o mundo ao mesmo tempo em que têm tradição de se fechar em guetos. A Chinatown de Vancouver é a terceira maior da América e lá você encontra de tudo, principalmente coisas nojentas que eles chamam de comida. Se vir gente andando em carrões turbinados com o som no volume máximo fazendo tremer as vitrines e assustar os passarinhos, a probabilidade de ser árabe é de 97,3%. Eles são fáceis de ser reconhecidos de longe: se vestem como jogadores de futebol brasileiros novos-ricos. 

Mas aqui a mistura racial, pelo menos no quesito interação social, se vê bem mais forte que na Califórnia, por exemplo. Lá os grupos andam separados. Mexicanos. Negros. Brancos. Aqui, numa mesa de bar, o que você vai ver muitas vezes parece aquelas propagandas de banco em que tentam colocar uma pessoa de cada raça: um loiro, um oriental, um miscigenado e um negro bonito.

Ah, sim, falei nessa mistura toda, mas não dei a ideia geral do que é a cidade. Mais da metade das pessoas é de origem asiática. Como a imigração é forte por aqui há anos, também se vê alguma resistência, como uma pichação que vi num muro outro dia: "Too many foreigners!".

Ah, as fotos ilustrativas do post são de canadenses originais, que moravam aqui antes dos imigrantes europeus.