segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pride Parade

Vancouver e' local para uma das maiores paradas gays do mundo, com estimativa de publico de 600 mil pessoas. Mesmo assim, ela nao e' conhecida como Parada Gay, mas como Pride Parade. E ai' fiquei me perguntando: por que tiraram a palavra "gay"? Numa cidade em que o politicamente correto ja se espalhou por todos os cantos vao censurar uma palavra em defesa da familia, da moral e dos bons costumes? Nananina.

Logo percebi que a questao era justamente a nao exclusao dos heteros. Sim, pois todos estao convidados a participar da festa, nao importa quem de pra quem.  No dia havia muita gente usando a camiseta "Gay for a day". Mas o mais espantoso - se compararmos ao Brasil - e' o numero de empresas que fazem questao de apoiar a parada. Supermercados, hoteis e bancos tradicionais colocaram as bandeiras do arco-iris ou propagandas com referencias ao dia. Mesmo ao longo do ano alguns supermercados (isso sem falar em bares e lojas) colocam uma enorme bandeira na vitrine. Se isso acontecesse numa grande rede em porto Alegre, fico so' imaginando a reacao furiosa do povo, as cartas indignadas nos jornais, os jornais botando lenha na fogueira e alimentando a repercussao. E' realmente uma festa para todos. Aqui, pega mal e' para a empresa que ficar de fora.

Outra coisa sao os grupos representados durante o desfile: ha professores, medicos, enfermeiros, judeus, motoristas de onibus,  terceira idade, escoceses, e no fim ja nao se sabe quem e' gay e quem nao e', pois isso nao e' motivo pra fazer diferenca.

Lembro de uma vez, no Brasil, ter comentado com colegas da faculdade que tinha assistido ao desfile em Porto Alegre. A reacao geral foi de surpresa: "Tu foi?!" Ninguem mais tinha ido, so assistido na TV com o conto do olho. Aqui, acontece o contrario, se alguem disser que nao foi a reacao e': "Como assim, nao foi?!"

Abaixo, fotos que fiz la', num ensolarado 31 de julho de 2011.








Fachada da maior rede de supermercados


Propaganda de banco em parada de onibus

Propaganda de banco



sábado, 20 de agosto de 2011

Celebration of Light

No final de julho e inicio de agosto houve aqui em Vancouver um espetaculo chamado Celebration of Light. E' uma competicao internacional de fogos de artificio. Em 2011 participaram China, Espanha e Canada, sendo que o primeiro saiu vitorioso. Milhares de pessoas enchem a beira da praia para assistir, e as ruas sao fechadas para o transito de veiculos.










domingo, 14 de agosto de 2011

Dia da Maconha

Vi que no Brazil a chamada "Marcha da maconha" foi reprimida em várias cidades. O que logo me lembrou o 4/20 aqui em Vancouver. 4/20 eé 20 de abril.




Nesse dia o povo se reúne para celebrar a marijuana com toda a liberdade do mundo. Sim, o pessoal se reúne em uma praça, em frente à Vancouver Art Gallery (espaço típico para eventos políticos) e fuma o dia inteiro. E tambem vende a erva em diversos formatos, como em cookies e brownies. A Polícia? Fica no entorno da praca, só olhando tudo, e cuidando da segurança dos maconheiros.


E isso é engracado em Vancouver. É possivel fumar maconha na rua sem ser molestado por qualquer representante da lei, mas é totalmente proibido beber uma cerveja na calcada. Alias, pode-se dizer que o cheiro de maconha é o aroma oficial da cidade. Nao ha sequer um so dia em que eu nao sinta esse cheiro, seja na praia, numa praca, da sacada dos vizinhos, em qualquer lugar mesmo. Eu nao fumo maconha, mas acho que, para quem fuma, essa cidade e' um paraiso em termos de liberdade (no que diz respeito a preco, porem, me disseram que e' meio cara). Entao, se gosta da coisa, aproveite. Mas nao ouse beber uma lata de cerveja no camping se houver alguem menor de 19 anos presente nas proximidades: voce sera expulso sem apelacao.

Dois videos do dia da maconha em Vancouver:
Um

Dois

terça-feira, 12 de julho de 2011

Coisas que so tenho coragem de dizer longe quando estou a 11.315km de casa

Quando a gente esta longe e sabe que nao vai voltar pra casa tao cedo, acaba deixando o constrangimento de lado e se sentindo mais livre pra falar aquilo que, em outro ambiente, poderia lhe causar problemas pelo excesso de sinceridade. Entao o melhor a fazer e' aproveitar a ocasiao e escancarar algumas das

Coisas que so tenho coragem de dizer quando estou a 11.315km de casa.

#1: Torci para os Estados Unidos na última Copa do Mundo.
Sim, nao pude evitar.



 
#2
Arroz puro não é comida! 
(Essa só é constrangedora de revelar por causa dos meus amigos chefs ou donos de restaurantes)
Ok, eu sei que entra pela boca e ocupa espaço no estômago, mas as semelhanças com um verdadeiro alimento param por aí. Se for um risoto tudo bem, mas arroz puro, sinceramente, é um desperdício de espaço no prato. Lanco agora a campanha "Arroz puro nunca mais"!
#3 Choro toda vez que escrevo um email para os meus pais.
 
#4 Odeio rock argentino.
Forcando muito a barra ate engulo um Gardel ou uma Mercedes Sosa, mas nao consigo aguentar aqueles magrelos bigodudos que juram que estao abafando cantando musicas chaterrimas que na verdade nao sao rock, mas um pop dos mais bregas e sem graca. O meu problema e' que, por algum motivo que me foge totalmente a compreensao, muitos dos meus amigos parecem adorar esse tipo de musica (mas o Manual do Intelectual Pop pode explicar isso).
 

domingo, 26 de junho de 2011

Aposentadoria precoce

Pois e, em outro post eu ja tinha comentado que estava investindo em uma nova carreira aqui no Canada. Me valendo do estereotipo do "brasileiro bom no futebol", consegui lugar em um time como goleiro, sendo o unico estrangeiro do elenco. Como ja nao sou mais um guri e nao estava em plena atividade recentemente (e como a minha ultima investida como goleiro ha um ano me rendeu um dedo quebrado), os amigos daqui me deram muita forca, me incentivando com palavras como: "desiste enquanto eh  tempo"; "foi pegar logo a posicao mais dificil!" e outras pedradas certeiras na minha autoconfianca.


Mas nao desisti. Me forcei a acreditar que a minha origem me dava poderes especiais e fui em frente. Me inscrevi no campeonato, que conta com doze times, que jogam nos campos da Universidade nas noites de quarta. Como o time nao foi bem na temporada passada (apenas duas vitorias), acharam que minha "contratacao" seria um reforco de peso (e se considerarmos meu IMC, foi mesmo). Ao contrario do Brazil, aqui mulheres e homens podem jogar juntos. Alias, eh obrigatorio que pelo menos duas mulheres estejam em campo durante a partida.


Enfim, estreei. Mlehor do que imaginava. Fiz boas defesas. Nao o suficiente para evitar a derrota. Elogios depois da partida, inclusive do time adversario. Mas aconteceu algo inesperado durante o jogo: numa das primeiras defesas a bola veio tao forte que acabei sentindo o pulso. Continuei jogando e mais tarde outra bola forte: dessa vez doeu demais, vi estrelas, mesmo com o ceu nublado. E pensei: agora fudeu. Nao quis dizer nada para o time (jah que nao havia goleiro reserva) e continuei jogando ateh o fim. Quando tirei as luvas, vi que a mao direita estava do tamanho de uma maçã. O pulso inchado e vermelho. 


Depois disso tive o meu primeiro contato com o sistema de saude canadense. E nao foi dos melhores. A primeira coisa que voce faz eh passar o cartao de credito, e pagar uma quantidade absurda de dolares (que me seguro prometeu reembolsar). Depois de preencher milhares de fichas e dar quinhentas assinaturas com minha mao esquerda (sou destro), aguardei inacreditaveis 3 horas para ser atendido, mesmo que houvesse poucos pacientes na madrugada. So' consegui remedio para dor pois insisti. Diagnostico: fratura no pulso e lesao nos ligamentos.



Acabou aqui minha pretensiosa carreira esportiva internacional.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vancouver Riot 2011 - Especulacoes

Um conhecido colunista de Vancouver escreveu que "a cidade perdeu a inocencia em uma noite de junho" e que "foram expulsos do Jardim do Eden", e que as coisas nunca mais serao as mesmas, "foi bom enquanto durou".


E depois de tudo o que aconteceu fica dificil de engolir certos comentarios, como o de que a violencia da ultima quarta-feira foi "coisa de terceiro mundo". Engracado que nunca vi coisa parecida em Porto Alegre. Outros escreveram nos murais um recado aos vandalos: "Go back to Surrey [bairro de imigrantes pobres]". Acontece que, como a policia apurou, quem promoveu a destruicao nao foram os pobres nem os imigrantes terceiro-mundistas, mas o povo canadense bem educado e bem nutrido. E ai esta o choque que muitos nao querem admitir. A maioria prefere continuar achando que meia duzia de pessoas lideraram os ataques, sendo que milhares de pessoas se envolveram espontaneamente. E dai voce se pergunta por que um povo que supostamente tem tudo (inclusive um bom time de hoquei) de uma hora para outra vira uma turba de barbaros ensandecidos.


Agora que a poeira ja baixou da pra fazer algumas especulacoes.
Logo que se chega em Vancouver da pra perceber que e' uma cidade onde as coisas funcionam. Transporte publico eficiente, limpeza das ruas, respeito ao pedestre e ao ciclista, nao ha caes nem criancas abandonados, e muitas coisas que um brasileiro pode invejar. Mas toda essa organizacao tem um preco. E agora parto para a minha psicologia barata de boteco fedorento para explicar em parte o comportamento das pessoas.


No Canada e nos EUA o povo adora repetir que vive em um "pais livre". "This is a free country!", gritam orgulhosos. E ai' esta o primeiro erro, pois se visitassem o Brazil, por exemplo, saberiam que a liberdade das pessoas pode ser muito maior. Acontece que, para que a ordem seja mantida, milhares de pequenas regrinhas devem ser seguidas: nao se pode atravessar a rua com sinal fechado ($50), nao se pode andar com um cachorro sem coleira ($200), nao se pode jogar certos tipos de lixo nas lixeiras de parques ($2mil), nao se pode ficar parado do lado esquerdo dos degraus de uma escada rolante, nao se pode falar alto no onibus ou no metro, nao se pode tomar uma lata de cerveja na rua (sera interrogado por um policial), nao se pode beber alcool na presenca de menores de idade, nao se pode entrar em um bar a noite ou comprar bebida sem apresentar pelo menos dois documentos de identidade (mesmo que voce obviamente tenha mais que 19 anos), nao se pode sinalizar para o garcom ou garconete (deve-se esperar ate que ela venha perguntar se voce precisa de algo). E tem muito mais. No meu predio, exemplo, eu nao posso entrar sem abrir o portao com a chave ou alguem abrir para mim pelo interfone. Outro dia entrei aproveitando que alguem saiu e a pessoa me impediu de entrar, mesmo eu dizendo que era um morador. A explicacao que ele me deu? Um perfeitamente logico e estupido "It's the rules!" Se, de uma pilha de jornais gratuitos, eu pegar um apenas para ler a capa, nao posso devolver para a pilha, e sim coloca-lo no lixo (na lixeira apropriada para jornais, claro). Os atendentes de qualquer estabelecimento tem que dizer palavras simpaticas (mesmo que estejam deprimidos ou em um pessimo dia), soando com a espontaneidade de um boneco de madeira. Possivelmente esqueci de algumas outras regras, mas acho que ja deu para se ter uma ideia da falsa liberdade em que os canadenses vivem.


Nao estou dizendo que essas coisas sejam necessariamente ruins, pelo contrario, sao boas para varios aspectos da convivencia social, mas sao acoes que limitam a liberdade, sao restricoes que, se somadas, oprimem, pois muitas vezes sao ordens obedecidas automaticamente, sem qualquer reflexao. E nao tenho duvida que micro vontades de nao obedece-las ficam escondidas em algum lugar do inconsciente, para um dia jorrarem violentamente, como no dia 15 de junho de 2011. O brasileiro desobedece e transgride regras diariamente, sem dor e sem culpa, ficando afastado, ao menos coletivamente, desse tipo de explosao social.


Abaixo, mais fotos:













terça-feira, 21 de junho de 2011

Vancouver Riot 2011 - fotos

Nao deu para o Canucks. Depois de estar quase com a mao na taca pela primeira vez na historia, acabou perdendo s erie de melhor de sete por 4-3, em casa, levando 4 x 0 para o Boston Bruins.

Todo mundo sabia que haveria revolta e confusao se perdessem o jogo, ja que em 1994, a ultima vez em que haviam chegado a uma final, houve quebra-quebra. Mas como a policia estava mais preparada, principalmente depois do treinamento par as Olimpiadas, ninguem imaginou que fosse acontecer o que aconteceu. Logo depois que o jogo terminou, comecaram as primeiras brigas no meio da multidao. Como um efeito domino, o que se viu minutos depois foi o comeco de um dos dias mais marcantes da historia de Vancouver. Carros foram incendiados (inclusive os da policia), latas de lixo queimadas, abrigos de onibus destruidos, banheiros publicos derrubados, lojas saqueadas. Por diversos quarteiroes, as milhares de pessoas que assistiam o jogo sem causar qualquer tumulto promoveram o caos na cidade que ate 2010 era considerada a melhor cidade para se morar no mundo.

Ao contrario do que quem so acompanhou as noticias de longe pode pensar, nao era um bando de hooligans que iniciou o quebra-quebra. Como se soube depois pelo levantamento da policia, a grande maioria dos envolvidos nao tinha qualquer antecedente criminal. Muitas mocinhas comportadas tambem entraram nas lojas para pegar bolsas e sapatos. Na minha frente, um rapaz com uma mala de rodinhas recem surrupiada me disse agitado e sorrindo: "Nao sei nem porque eu peguei isso, eu ja tenho quatro em casa." Ou seja, foi "gente normal" que causou toda a destruicao.

A recuperacao foi rapida. Como o trabalho de limpeza e reconstrucao comecou na mesma noite, pela manha se viam poucos sinais da baderna. As lojas imediatamente substituiram os vidros quebrados ou colocaram tapumes de madeira. Os tapumes logo viraram murais para milhares de recados da populacao, que louvou o trabalho da policia e dos voluntarios que ajudaram a limpar tudo e condenou a acao dos vandalos. Um abaixo-assinado chegou a ser feito para que os murais fossem preservados, e agora serao doados ao um museu.


Ainda nao consegui postar os videos que fiz, entao por enquanto vao apenas as fotos:











sábado, 11 de junho de 2011

Go Canucks Go!

Pois eh, esse post eh para perder de vez o resto de consideracao que meus amigos intelectuais tinham por mim. Como se sabe, o verdadeiro intelectual tem obrigacao moral de detestar qualquer tipo de esporte, principalmente esportes coletivos e populares, como o futebol. Desconfio que eles apenas nao gostem do barulho dos rojoes em noites de jogos, mas acabam criando toda uma teoria baseada em gostosoes da escola de Frankfurt para destruir qualquer prazer de quem gosta de futebol. Por muitos anos fingi que era um candidato a intelectual, substituindo bolas de futebol por livros e arquibancadas por predios universitarios. Mas devo informa-los que essa fase ja acabou.


Mas nao era sobre isso que queria falar (sou pessimo em improviso, que acaba se tornando quase sempre enrolacao). Ia falar do esporte nacional do Canada. Apesar de muitas criancas jogarem beisebol nas pracas e de jovens jogarem volei na praia, o hoquei no gelo e' o favorito de 9 entre 10 vancouverites. E tive a sorte de estar aqui num momento particularmente especial: o time de Vancouver, o Canucks, nunca ganhou um campeonato e soh chegou numa final ha 17 anos. O outro time que a cidade tinha chegou ha mais de 40 anos. E acabaram de chegar novamente, contra o time de Boston (jogam times americanos e canadenses). A final eh uma melhor de 7, e ateh agora esta 3-2 para o Canucks, que pode ser campeao na proxima partida. Para se ter uma ideia da importancia desse jogo, que vai entrar para a historia da Cidade, nos dias de jogos as principais ruas do centro sao bloqueadas para carros e tomadas por pessoas enlouquecidas, subindo em postes, tirando a roupa, gritando e, principalmente, fazendo o high-5 (batendo na palma da mao dos outros) com desconhecidos a noite inteira.


A empolgacao do povo eh tao grande que eh capaz de contagiar ateh mesmo aqueles que, no Brazil, sempre odiaram esportes e celebracoes coletivas. Testemunhei uma dessas pessoas correndo pela Granville, fazendo high five e gritando: Go Canucks Go!, Go Canucks go! para quem quisesse ouvir.




Agora, pra acabar de vez com qualquer resquicio de respeito que os amigos tinham por mim, a pah de cal. Me convidaram para jogar como goleiro num campeonato de futebol na universidade. Aceitei e comeca a temporada semana que vem.